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[ARTIGO] Precisamos conversar sobre ‘Coringa’

O texto abaixo contem Spoilers do filme.

Joker não é só sobre luta de classes, mas sobre transtornos mentais e os estigmas da sociedade. Na verdade, ao meu ver, é muito mais sobre transtorno mental e ao caminhar do filme você tem a luta social como um plano secundário que Arthur se aproveitou para desabafar suas queixas principais. Ah lá, espera, talvez o que eu diga faça sentido, desiste de mim não meus anjos.

Bora lá. Arthur Fleck é um cara que já está adoecido há anos e que tem essa relação simbiótica com a mãe e ao mesmo tempo sente o peso de ter que lidar com suas dores internas que toda a comorbidade psicótica dele carrega. Como por exemplo delírios durante todo o filme, como ele acreditando que sua vizinha cria um caso com ele ou que um apresentador de tv local o chama para participar do programa como seu convidado particular. Arthur possui um comportamento violento que é o tempo todo contido, mas que extravasa em momentos pontuais de estresse. E é nesse momento pontual que o filme toma um outro rítimo importante, justamente quando ele mata 3 membros importantes da sociedade de Gotham, garotos privilegiados que acabam tendo seus rostos estampados em todo noticiário. Como foi dito em nossa crítica, a cidade passa por um momento de tensão política. A acensão do poder da classe alta, enquanto os mais desfavorecidos são marginalizados. E adivinha de que camada nosso Arthur participa? Pois é. inclusive ele faz terapia com uma assistente social (perigo, perigo. Assistente social NÃO FAZ TERAPIA. BUSQUEM PSICÓLOGOS, TITIA AGRADECE) no sistema público e o governo de Gothan corta esse programa, por falta de verba. Arthur que já é quebrado e vai sempre para a sessão só para falar (e infelizmente nunca é escutado) e pegar seus remédios, se vê em um beco sem saída. Sem seus psicotrópicos, ele perde a pouca estabilidade (ele claramente vive no seu limite), isso o muda de rota. Pois é exatamente no momento em que o filme tem essa pegada de revolução da população que nosso Arthur começa a ter sua revolução própria. Através de mais delírios e alucinações e com o comportamento agressivo muito mais evidente, Arthur é convidado a ir ao programa de tv do seu apresentador favorito. Ele tem uma ideação suicida muito bem planejada, com ensaios e tudo. Na vontade de fazer isso na tv, para chocar. E esse chocar é no intuito de ser visto, das pessoas enxergarem seu adoecimento. Tem uma passagem no filme que aparece seu caderno de piadas que ele escreve mais ou menos isso: as pessoas esperam que eu me comporte como uma pessoa normal, mesmo não sendo. Algo assim. O filme é tudo isso. É essa revolta nasce quando as pessoas não enxergam os adoecidos e esperam que o comportamento seja de acordo com o que os outros esperam. E é por isso que ele não se mata. É por isso que ele mata o personagem do De Niro. Pois ele, como essa figura paterna que Arthur fez dele, o diminui. Por ser quem ele é. por não o enxergar. Eu sei, você pode ter uma concepção diferente e esse filme é sobre luta de classe. Não deixa de ser. Mas para uma pessoa psicótica que foi retrada o filme inteiro, era sobre a escuta. E o filme inteiro ninguém escutava o que ele tinha a falar. E o único momento em que ele fala livremente, é no programa. E ali ele muda de ideia como tudo ao seu redor irá funcionar. Ao meu ver é um filme belíssimo sobre sujeito com psicose e que poderia virar um estudo clínico muito interessante. Mas você tem todo direito de achar o filme de outra forma. Mas assistam, pois vale cada minutinho.